O sussurro de Chet Baker

“Melissa tinha apenas três dias de idade quando recebi um telefonema de Baker dizendo que ele tinha sido espancado por cinco jovens negros e que estava tomando o ônibus para casa. Foi algo relacionado à droga. Baker tinha frequentado uma determinada área durante a sua estadia em San Francisco. Na noite antes da surra, ele tinha fugido de uma pessoa que ele tinha certeza de que estava seguindo-o para roubá-lo. Na noite seguinte, quando ele deixou o clube, ele foi abordado por cinco rapazes negros que lhe perguntaram a hora. Quando ele olhou para o relógio, ele foi atingido com um soco na cabeça e o espancamento começou. Felizmente para ele, outros dois homens negros mais velhos, em um carro, pararam e o puxaram para fora do grupo, que ainda estava socando e chutando ele, e o levou para o hospital. Eu não sabia bem o que esperar até o ver. Era uma cena lamentável. Pontos sobre o olho, dentes quebrados e contusões pretas e azuis em toda parte inferior do corpo onde ele tinha sido atingido. O pior de tudo foi o fato de que seus dentes foram destruídos e ele tornou-se incapaz de tocar.”

Carol Baker, esposa de Chet Baker, para a primeira edição da revista Chet’s Choice, periódico dedicado ao trompetista

Nascido em Oklahoma, 1929, Chet Baker tinha apenas treze anos de idade quando ganhou um trombone de seu pai, Chesney Henry Baker. Sofrendo os efeitos da Grande Depressão, Chesney Baker não conseguiu sustentar a família através de sua guitarra, mas quis transferir para o filho Chesney Henry Baker Jr, o Chet Baker, sua paixão pela música. “Quando eu tinha treze anos, papai chegou em casa com um trombone. Tentei tocá-lo durante umas duas semanas, sem muito sucesso. Eu era pequeno na minha idade, e não conseguia alongar até o fim a vara do trombone. Além disso, o bocal era muito grande para os meus lábios. Depois de umas semanas, o trombone acabou desaparecendo, e em seu lugar surgiu um trompete, que era muito mais apropriado para o meu tamanho”, diz Chet em seu livro de memórias, que foi publicado no Brasil como ‘Memórias Perdidas’ (Ed. Jorge Zahar).

Com o trompete em mãos, Chet poderia estudar música e participar da banda do colégio. Mas era avesso aos estudos. Em 1946, com 16 anos, abandonou a escola e se alistou no serviço militar. Foi enviado para Berlim, Alemanha, onde integrou a Banda do Exército 298. É  nesse período em que ele ouve Dizzy Gillespie pela primeira vez. E se encanta.

Em 1948 ele é dispensado e volta para Los Angeles, onde tenta recomeçar os estudos de música na El Camino College. Não dura dois anos. Por vontade própria, ele volta ao Exército em 1950 e entra para a banda militar do Presídio de San Francisco. É lá que ele realmente inicia sua vida de músico de jazz profissional, participando das noites de jams sessions nos clubes. Mas novamente não dura por muito tempo na banda do exército. Como um verdadeiro boêmio, preferiu abandonar a vida militar e voltar para Los Angeles, onde se entregou de vez ao jazz.

Na época, Charlie Parker estava a procura de um trompetista para a sua nova turnê pela costa oeste dos Estados Unidos. Baker ficou sabendo e foi ao Tiffany’s Club, onde Paker estava realizando a seleção. Diz-se que a sessão terminou quando o Bird ouviu Baker. “Cuidado, há um gato branco e pequeno na Costa Oeste que vai comer você”, teria dito Charlie Paker acerca de Chet para Dizzy Gillespie. Baker era apenas um jovem de 22 anos que acabara de desertar do exército.

Se a entrada para os grandes nomes do Jazz foi com sua participação na turnê de Bird, foi com a banda de Gerry Mulligan, em 1952, que conquistou notoriedade em toda a América e Europa. A espetacular interpretação de My Funny Valentine contribuiu muito para isso, indiscutivelmente, mas havia  também outros fatores que alavancaram a dupla. Baker e Mulligan eram brancos (em um período de forte discriminação racial), jovens e belos, e por isso chegaram a ser comparados às estrelas do cinema. Baker, inclusive, tinha a sua imagem relacionada com a do ator James Dean, não só fisicamente, mas também por sua postura rebelde; o que o levou a atuar no filme Hell’s Horizon (1955).

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Los Angeles, 1953, por Bob Willoughby

Musicalmente,  o quarteto de Mulligan destacou-se por ser a primeira formação sem o uso do piano. Eram apenas o sax barítono (Gerry Mulligan), trompete (Chet Baker), baixo (Bob Whitlock) e bateria (Chico Hamilton). Sem os acordes do piano, os músicos conquistavam mais liberdade e improvisavam através do contraponto, com o baixo ordenando a rítmica. A novidade agradou os críticos e, principalmente, os saudosos pelo jazz tradicional de New Orleans.

Mas, como grande parte dos músicos do período, Mulligan perdeu-se no uso da heroína e acabou sendo preso em 1953. A banda  durou menos de um ano. No entanto, Baker continuou a carreira e formou seu próprio quarteto, ganhando cada vez mais protagonismo. Ainda em 1953, lançou sua primeira gravação e no ano seguinte, 1954, gravou Chet Baker Sings, revelando-se como exímio cantor de jazz.

Ele é o Dostoiévski do jazz – excesso, angústia e tristeza são as coisas dele. (…)  Chesny H. Baker representa uma amálgama assustador do espírito humano.

Mike Zwerin

Chet foi um dos maiores representantes do cool jazz;  estilo de jazz que surgiu a partir de 1940, caracterizado por um andamento mais lento, melancólico, uso de pouca notas, ausência de vibrato, frio como seu próprio nome indica; e que tem em Miles Davis o seu maior expoente.

Para o historiador britânico Eric Hobsbawm,  o cool é o “ponto que fica quase na fronteira entre o jazz e a música erudita comum. O próprio nome é um paradoxo. O jazz do passado era, pela sua própria natureza, hot – sensual, emocional, físico – e “sujo”. (…) O jazz cool buscava um ideal até então irrelevante de pureza musical, o que quer dizer, em muitos aspectos, uma reversão total da maioria dos valores do jazz”.  (A História Social do Jazz, 1989, Ed. Paz e Terra).

Pode ser verdade que o cool se contraponha ao bebop (estilo antecessor, marcado pelo andamento rápido, virtuosismo, frenesi) e que não seja tão hot como queria Hobsbawm, mas não deixa de ter alma. Baker, com o seu trompete e voz sussurrados, contidas em notas de médio registro pra baixo, expressava contraditória e perfeitamente a sua alma inquietante. O whispy (sussurro), inclusive,  tornou-se o ideal da música cool. (Alguma semelhança com a  Bossa Nova? Sim. João Gilberto sofreu influencias do cool jazz).

A vida conturbada, morte polêmica e a música “fria” de Baker me remete aos boêmios do Romantismo. Almost Blue  é exemplo de uma poesia melancólica, carregada de um sentimentalismo e pessimismo. Pode não ser frenético como uma execução bebop de Charlie Parker, mas é completa de verdade [alma]. É praticamente impossível ouvir My Funny Valentine  e não se apaixonar por essa garota de traços gregos, unphotographable.  Há também: When I Fall In Love, Alone Together, My Ideal, e um vasto conjunto de obras.

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Em 1986, por John Claridge

Tão contraditório à “calmaria” do cool, era a vida de Chet. Durante os anos 50 ele começa a ter contato com a heroína e já na década de 60 começa a ter os primeiro problemas. “Em 1957. Tinha 27 anos. E todos os músicos que eu achava que eram os maiores, estavam em que você sabe (envolvidos com drogas). E eu nunca mexi com isso por um longo tempo. Todo o tempo que eu estava com Gerry Mulligan eu estava limpo, mas as pessoas pensavam que eu estava fazendo alguma coisa”, diz ele em uma entrevista a Gudrun Endress, na Jazz Podium Magazine, 1978, quando perguntado sobre quando tudo começou. 1957 foi o ano em que Baker volta para Nova York após a morte por overdose do seu amigo pianista Dick Twardzik, durante uma turnê pela Europa.

As coisas começam a ficar difíceis para Baker. Nos EUA ele é preso várias vezes e depois de solto, proibido de tocar em clubes. Então, decide ir para a Europa em 1960. Na Itália, é preso novamente e permanece encarcerado por quase um ano e meio, seu maior período. “Quando eu estava na prisão na Itália, em 1960, não havia uma pessoa que falava uma palavra de inglês no lugar, não havia livros em Inglês, e eu estava trancado em mim – nos primeiros seis meses em mim mesmo. Eu não estava autorizado a falar com ninguém”, diz ele na entrevista para Gudrun Endress.

Após conseguir liberdade, em 1962, ele lança Chet is Back pela gravadora RCA, em comemoração à conquista. Mas no final do mesmo ano ele é preso na Alemanha Ocidental, expulso para a Suíça e transita entre França e Inglaterra em uma vida de muito jazz, drogas e prisões. Decide voltar para os EUA em 1964 com uma novidade, o uso do flugelhorn, uma espécie de trompete de timbre mais aveludado. Faz algumas gravações comerciais, mas sem muito sucesso.

Em 1966 acontece o acidente descrito por Carol Baker. Após sair de um clube em San Francisco, ele é agredido por cinco jovens por causa de uma dívida relacionada às drogas. Baker perde alguns dentes e é obrigado a paralisar a sua carreira. Diz-se que Baker, a época, tocava Bossa Nova com a The João Donato Trio, e nesse dia teria chegado atrasado como nos outros dias, mas agora com um lenço sobre a boca ensanguentada.

Já reabilitado, em 1973, Baker tenta voltar ao Jazz. E a ajuda veio do ídolo dos tempos em que ouviu o jazz pela primeira vez no rádio do exército, Dizzie Gillespie. Baker estava visitando um amigo em Colorado quando ficou sabendo que Gillespie se apresentava na região do estado. Gillespie ouviu falar sobre os problemas de Baker e da falta de trabalho, então falou com o gerente da Half Note, em Nova York, e conseguiu uma temporada de 3 semanas para Baker. Esse foi o início da volta de Chet Baker à cena musical. Ainda em 1973, ele se apresenta no Carnegie Hall ao lado de Gerry Mulligan mais uma vez. Desde então, volta a fazer turnês pela Europa (o que tanto gostava) e se consolida novamente no cenário do Jazz.

Baker segue com a sua carreira razoavelmente estabilizada durante os anos 70 e 80, controlando o seu vício através do tratamento com metadona. Até que, em 1988, durante  a sua estadia em Amsterdã, cai do segunda andar do Hotel Prins Hendrik. Uma morte misteriosa. Até hoje não se sabe se Chet Baker se suicidou ou simplesmente caiu por acidente, atordoado por drogas. “Baker caiu pouco depois de 3h10 e foi encontrado morto na rua pela polícia, de acordo com um porta-voz da polícia de Amsterdã, que não deu nenhuma informação sobre o que causou a queda”, diz matéria do New York Times na época.

Chesney Henry Baker Jr. tinha 59 anos na data de sua trágica morte, em 13 de maio de 1988. No ano seguinte, entra para o DownBeat Hall of Fame escolhido pelos críticos, e se eterniza na história do jazz.

Um dos mais contraditórios  músicos de jazz, inevitavelmente a polêmica vida de Baker tende a se sobressair diante a sua música tão esplêndida, uma expressão cool por excelência. Uma pena. Talvez o sussurro de Chet Baker traduza tudo aquilo que ele não encontrava em [sua] vida. Mas tudo bem Chet, Every Time We Say Goodbye.



Nota

A vida de Chet Baker é assunto para a literatura, cinema e teatro. No Brasil, podemos encontrar a biografia NO FUNDO DE UM SONHO, de James Gavin.  No cinema, temos o polêmico documentário LET’S GET LOST (1988), gravado ainda quando Chet Baker estava vivo e lançado posteriormente a sua morte. Também, BORN TO BE BLUE, filme de Robert Budreau, com Ethan Hawken, previsto para estrear internacionalmente em março. E, no teatro, o recente trabalho de Paulo Miklos em CHET BAKER, APENAS UM SOPRO,  em cartaz no CCBB de São Paulo até abril.


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